Luciene Weiland: Viva Arouche: A Casa Respira História, Arte e Resistência

Foto: Divulgação Pública enviada por Izabel Cristina jornalista
No dia 22 de agosto, fui convidada pelo repórter e fotógrafo Roberto Esteves, sócio do Casarão Multicultural Espaço VivaArouche, na Rua do Arouche, 126, na República, em São Paulo, para fazer um registro fotográfico para compor sua exposição Mãos Negras é o Café, mostra esta, que celebra o legado ancestral de quem, historicamente, cultivou o café no Brasil. Foi ali, entre imagens que contam essa história por meio das mãos que a fizeram, que conheci Luciene Weiland, historiadora, cantora lírica e sócia de Roberto no Casarão. Ele mesmo fez questão de nos apresentar e pediu que ela me contasse sua trajetória. O que se seguiu foi uma conversa que, terminada a entrevista, se estendeu para um almoço: naquele dia, a casa havia preparado um cardápio especial para amigos vindos de São Paulo e de outros estados do Brasil. Fiquei. Era impossível não ficar, aquele lugar transmite vida em forma de arte. Esta é a história que ouvi!


De Campina Grande à Alemanha, e de volta ao Brasil

Luciene Weiland nasceu em Campina Grande, na Paraíba, onde cresceu entre as danças populares que marcam o Nordeste, o coco, a ciranda, manifestações fortes também em Pernambuco e Alagoas. "Essa força eu levo para a vida toda. Não consigo me sentir representada em um espaço sem coletividade. É preciso repartir conhecimento e experiências", disse. Formou-se aos 22 anos e logo deixou a Paraíba rumo a São Paulo, construindo sua trajetória com o apoio de muita gente pelo caminho. Historiadora de formação, viveu ainda na Alemanha, onde se casou e teve três filhas. Uma delas, ela perdeu tragicamente aos 25 anos, há três anos. É uma dor que Luciene carrega com serenidade e que, segundo conta, a aproximou ainda mais do valor do acolhimento: "Percebi a importância desse acolhimento após perder minha filha. O apoio dos amigos me fortaleceu muito."

Do casamento na Alemanha, hoje desfeito mas transformado em amizade duradoura, Luciene trouxe também um aprendizado estético que marcaria o resto de sua vida: o gosto pelo design, sobretudo pelo movimento Bauhaus. "Tenho duas cadeiras originais da Bauhaus e outras peças que fui reunindo ao longo da vida. Meu ex-marido, alemão, tinha grande apreço pelo design, e aprendi muito com ele", conta. De volta ao Brasil, Luciene encontrou o espaço que daria forma a tudo isso: um casarão histórico no centro de São Paulo.

Um casarão, uma paixão à primeira vista

"Quando vi o casarão, me apaixonei. Como historiadora, percebi o potencial do espaço", relembra Luciene. O imóvel já havia sido restaurado pelos herdeiros com a intenção de se tornar um coletivo de artistas e designers, nos moldes do que ela conhecera em Berlim, mas o projeto original não vingou. Foi Luciene quem assumiu o espaço, primeiro ocupando o andar térreo, onde antes funcionava um estúdio conduzido por cinco mulheres. Hoje, ocupa também o andar superior. Desde então, o casarão vem sendo palco de uma programação cultural intensa: lançamentos de livros, palestras, exposições. O Coletivo Preto já celebrou ali seu aniversário de nove anos; mais recentemente, o espaço recebeu uma mostra de esculturas de orixás em grande escala. Assim nasceu o Espaço VivaArouche, nome que veio quase por acaso, como um convite à própria vida. "Pensamos em um nome e dissemos: 'Vamos de VivaArouche!'. É a ideia de dar vida às coisas. Aqui tudo é colorido, bonito, harmonioso", explica.

O casarão e sua memória: Proveniente da Síria à Armênia

A construção é de 1905, anterior, inclusive, ao Teatro Municipal, referência arquitetônica mais antiga da região, inaugurado em 1911. A família que originalmente habitou a casa era síria, e ali permaneceu até 1977, quando o imóvel foi adquirido pelos atuais proprietários, herdeiros armênios, para quem cuidar da casa se tornou uma verdadeira paixão de família. Em frente ao casarão há outra casa, também bonita, mas sem tombamento, hoje ocupada por um partido político. Ao longo dos anos, o imóvel vizinho passou por diferentes formas de uso e ficou fechado por um bom tempo, até que dois irmãos, Fábio e seu irmão, assumiram o desejo, antes do pai, de reformá-lo. A obra, com investimento superior a um milhão de reais, seguiu uma visão europeia: galerias e grades de proteção, essenciais porque nada ali pode ser furado, cuidado indispensável, por exemplo, para preservar a arte de Roberto Esteves exposta no local. Até a instalação de uma pia no café exigiu tempo e cautela redobrados.

Ao final da reforma, artistas como Dias e Shine pediram para expor seus trabalhos na casa. Na entrada, uma escada com iluminação especial valoriza hoje todo esse processo criativo. Já dentro do piso original de peroba rosa do VivaArouche, muito deteriorado com o tempo, Luciene fez questão de cuidar pessoalmente da restauração: pesquisou orçamentos, foi até a Rua Florêncio de Abreu comprar máquina  de polimento e lixas adequadas e, com a ajuda de um amigo, realizou boa parte do trabalho manual, que mantém com carinho até hoje.

O café como memória e resistência

Foto: Divulgação Pública
No térreo do casarão, Luciene se uniu ao Repórter fotográfico, barista e produtor de café Roberto Esteves para transformar o ambiente em um café cultural. Mais do que servir a bebida, o espaço propõe uma reflexão sobre a presença negra na produção cafeeira e na arte, o mote da exposição que me levou até lá. "As pessoas entram e se deparam com o barista, que é produtor e artista. Ele criou uma exposição exatamente sobre o café e sua relação com mãos negras", contou Luciene. Para ela, cada peça exposta ali carrega uma trajetória, e é justamente essa ideia de representação coletiva que resume o espírito do VivaArouche. "As pessoas perderam identidade, principalmente com a tecnologia e as redes sociais. Aqui, qualquer um pode se sentir representado enquanto sujeito histórico", afirma.

Uma casa sem apoio governamental, por escolha

Apesar de sua relevância cultural, o VivaArouche segue há três anos sem qualquer apoio do poder público. Uma decisão deliberada, segundo Luciene: "Primeiro quis organizar a casa e mostrar resultados. É preciso ter responsabilidade intelectual ao buscar apoio cultural. Quando se utiliza verba pública, alguém está pagando por isso. Não pode ser qualquer coisa." Hoje, com o espaço consolidado, ela começa a atrair clientes e parcerias, sem abrir mão da visão crítica que sempre guiou o projeto.

Uma vida minimalista, um acervo generoso

Curiosamente, quem visita a casa particular de Luciene encontra pouquíssimos objetos: cama, geladeira, roupas. Todo o acervo histórico e artístico que ela reuniu ao longo da vida foi transferido para o espaço cultural, onde pode ser valorizado e compartilhado. "Sou gateira, tenho 20 gatos. Naturalmente, precisei adaptar minha vida e preservar o acervo aqui", brincou.

Uma equipe, uma família escolhida: O VivaArouche é sustentado por uma rede de colaboradores que Luciene descreve com carinho:


Nadia, gerente da casa, descendente de empreendedores e de uma família de costureiras, com quem Luciene se conectou através do projeto África Friends, do reverendo Djalma Rose. Hoje, Nadia comanda a curadoria da casa ao lado de outros curadores por vertente — música popular, exposições, entre outras. Xondara, mulher indígena de Manaus, com passagem por Belém, formada em pedagogia por meio dos projetos de incentivo à educação do governo Lula. Na cozinha, ela resgata uma ancestralidade profunda, transformando pratos tradicionais com ingredientes como inhame e amendoim, Roberto Esteves, sócio, repórter fotográfico, idealizador e curador da exposição Mãos Negras é o Café, Hussein Said Chahrour, escritor, diretor, cronista e roteirista. Curador do Casarão. Na cozinha, Xondara Munduruku ensina sobre as raízes dos alimentos, comparando o uso do amendoim e do grão-de-bico em civilizações antigas. No VivaArouche, a alimentação é tratada como elo com a ancestralidade: carnes de qualidade, queijos selecionados, nada de industrializados ou açúcares refinados,  um cuidado que Luciene diz carregar desde a infância na Paraíba, onde testemunhou o impacto dos agrotóxicos na vida e no meio ambiente.


Para Luciene, a casa também é sua família

Foto: Divulgação Pública
"Para mim, esta casa é o meu grande aporte", diz Luciene. Tendo perdido os pais e sem familiares em São Paulo, foi no VivaArouche que ela encontrou o que descreve como sua verdadeira família — não pelos laços de sangue, mas pelo acolhimento, pelo olhar, pela presença. "Esta casa pertence a todos nós. É um espaço de resistência, arte, memória e acolhimento para quem quiser somar forças à nossa luta",  resume.

O almoço que não estava nos planos

Terminada a entrevista, Roberto e Luciene me convidaram para almoçar: naquele dia, a casa havia preparado um cardápio especial para receber amigos de São Paulo e de outros estados do Brasil. Aceitei sem hesitar. Entre os pratos de Xondara, o café, a bebida cajuína, a exposição de Roberto e as histórias de Luciene, entendi na prática o que ela quis dizer sobre coletividade e representação.

À mesa, uma reunião de trajetórias vindas de diferentes cantos do país: 

Isabel Cristina, jornalista e presidente da AJEB Porto Velho, Rondônia, Ionei Oliveira, jornalista, CEO da Cooperativa Café Beija-Flor, na Chapada Diamantina, Bahia, Dr. Esdras Couto, médico, escritor e palestrante, Luciene Weiland, cantora lírica e CEO do Casarão Multicultural VivaArouche, Prof. Bernardo Jazen, CEO do Instituto Desenvolver, Zenaide dos Santos S. Aguilar, jornalista, autora, pedagoga social e arte-terapeuta em biojoias, Sônia Miquelin, idealizadora do Prêmio Internacional F.A.L.A.I, da A.C.I.MA no Brasil, Lu Braga, jornalista, José Eduardo, da OBME São Paulo, Yara Regina Franco e esposo. Foi diante dessa mesa plural, diante dos quadros  em exposição Entidades em Turquesa do artista plástico Vick Manvc, do café Beija flor, coado na hora, que o VivaArouche mostrou, na prática, o que Luciene chama de espaço de representação coletiva: jornalistas, médicos, produtores, expositores, educadores e artistas, de Rondônia à Bahia, reunidos em torno da mesma mesa no centro de São Paulo. O VivaArouche não é só um casarão restaurado, ele é, como ela mesma define, uma casa que resiste ao tempo e ao individualismo, e que segue de portas abertas para quem quiser somar forças à sua luta.

Por Zenaide dos Santos S. Aguilar Jornalista Colunista

2 comentários:

  1. Excelente iniciativa e reportagem! Parabéns a todos os envolvidos!

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    1. Gratidão, Antônio fico feliz, seu comentário é de suma importância.

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